Eu...
Sou...
Sou inimaginavelmente calma,
Sinto-me tremendamente só
Sou uma espécie de noite
que antecede o dia,
Ou uma espécie de dia
que prevê a noite.
Sou o rio que corre
pelas entranhas mais estranhas do monte,
Ou o monte que deixa estranhamente
penetrar o rio nas suas entranhas.
Sou um misto de frio e calor,
de suor e arrepio.
Sou a imagem
apagada da memória,
Ou a memória
que se recusa a ser apagada.
Sou a caneta permanente
que se desvaneceu com o tempo,
Ou tempo permanente
que se deixou escrever sem tinta.
Sou a palavra mais bela
que não se pode ler,
Ou a leitura mais simples
que não se pode esquecer.
Sou com ou sem
Ou tudo ou nada
Sou eu sem mim
ou em mim não está nada.
Sou a palavra que não se prenuncia,
E sinto que no silêncio
sou finalmente
eu.
Liliana Cardoso
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